O Corpo na Psicanálise e o Paradigma que o sustenta

 

O corpo com o qual lidamos em psicanálise é, em princípio, o corpo representado ou erógeno  - sendo este corpo considerado como diferente do corpo biológico, que estaria fora do campo da psicanálise.

 

Esta concepção fundamenta-se na teoria pulsional, uma vez que a pulsão - “conceito limítrofe entre o psíquico e o somático” - foi a via que Freud nos deixou para inclusão do corpo na psicanálise: a pulsão - na verdade a pulsão sexual - com sua fonte somática, é representada no psíquico por seu representante representativo e pelo afeto.

 

Fica evidente que a teoria pulsional fundamenta-se em um paradigma que parte da separação entre corpo e mente - pois o próprio fato da  pulsão ser um conceito limítrofe entre o psíquico e o somático mostra que Freud parte de uma separação entre os dois, que necessita da pulsão como uma ponte de ligação.  E não poderia ser de outra forma - sendo Freud um médico, que iniciou sua carreira trabalhando no laboratório de fisiologia de Brucke, é inevitável que  sua obra tenha sofrido a influência do paradigma cartesiano-newtoniano, dominante nos meios científicos de seu tempo. Conseqüência disto foi o corpo dito biológico ter ficado excluído de uma prática clínica que passou a privilegiar quase que exclusivamente o verbal. No extremo desta posição temos alguns teóricos que -  partindo de uma outra colocação de Freud sobre a pulsão, segundo a qual esta, como representante psíquico das excitações do interior do corpo,  seria ela própria psíquica - chegaram a postular um corte radical e a existência de uma abismo entre o psíquico e o somático, defendendo que o campo da psicanálise é exclusivamente o psíquico, não tendo ela nada a fazer com o somático.

 

Este é um resumo brevíssimo do campo que tem sido prioritariamente desenvolvido pela psicanálise até hoje: o do pulsional - do inconsciente recalcado, dinâmico, das fantasias inconscientes, das formações do inconsciente. Campo do sentido, do representado, manifesto em sintomas, sonhos, associações livres e outros derivados do inconsciente passíveis de interpretação. Campo da palavra.

 

Com o conceito de pulsão de morte, no entanto,  Freud introduz uma

nova dimensão na teoria das pulsões - a de uma pulsão silenciosa, que não se faz representar no psíquico. Se ela não está representada no psíquico, aonde, então, ela está? Conectados a este questionamento – sobre o que não está representado no psíquico - alguns psicanalistas vêm voltando sua atenção para uma dimensão clínica carente de mais pesquisa e maior desenvolvimento - uma dimensão também presente em Freud, da ordem do Primitivo e do Traumático e das defesas radicais a eles relacionadas. Se olhamos com cuidado para esta clínica, percebemos existir aí algo também silencioso, que nunca esteve no campo do sentido, embora busque aí chegar. Esta clínica nos aponta para um  campo de pesquisa já explorado por autores como Ferenczi, Fairbain, Winnicott e outros, que enfocaram predominantemente o campo das experiências primitivas na relação com o outro, experiências da ordem da sobrevivência e da necessidade e portanto anteriores ao pulsional representável - que na verdade proporcionam uma continência ao pulsional, possibilitando assim  que ele tenha acesso à representação e passe a fazer sentido; em outras palavras, estamos falando de experiências que proporcionam condições ao exercício do simbólico. As falhas neste campo de experiências,  dependendo de sua gravidade, geram falhas estruturais e/ou estados dissociados que, ao surgirem na clínica, demandam novas formas de manejo, diversas daquelas apropriadas para lidar com o inconsciente recalcado em estruturas já estabelecidas. Como lidar com este silencioso , que está fora do campo do sentido e portanto não é verbalizável? Se ele não está no campo do sentido, aonde então ele está?

 

Penso que este tipo de impasse, sobre o que está dentro ou fora do psíquico, dentro ou fora do campo do sentido – e que pode deslizar para colocações perigosamente localizacionistas – é gerado pelo paradigma moderno que separa mente e corpo.

 

O Novo Corpo proposto pelos Novos Paradigmas

 

Este Departamente parte de paradigmas diversos do paradigma moderno cartesiano-newtoniano, e que situam-se dentro do conceito de Paradigma Emergente, segundo a colocação de  Thomas Kuhn. Trata-se de paradigmas que tem seus fundamentos na Física Contemporânea (Einstein e a Física Quântica) e que geraram movimentos tais como o Pensamento Complexo, a Transdisciplinaridade, a Ciência do Sentir  e algumas vertentes da Neurociência, como por exemplo a Psiconeuroendócrinoimunologia. Segundo estas abordagens, a Realidade é multidimensional, ou seja - a Realidade, Una em sua Essência, manifesta-se em diferentes dimensões, ocorrendo assim a pluralidade dentro da unidade. Aplicada ao ser humano, esta visão considera que não existe o psíquico e o somático - mas apenas o psicossomático, que se manifesta como psíquico e/ou como somático. Para enfatizar esta não separação a Ciência do Sentir cunhou o termo  Macromicro humano, e a Neurociência o termo Corpomente – que seria uma rede psicossomática de informações, apontando assim para a existência de uma forma de comunicação não simbólica, de uma inteligência não racional, aonde se apagam as fronteiras entre o corpo e a mente, entre o somático e o psíquico.

 

De acordo com esta nova visão, a distinção que passa a importar para nós, não é mais entre o biológico e o psíquico, mas entre o que já teve ou não representação no Sistema Préconsciente-Consciente; ou seja,  entre o inconsciente recalcado, objeto de nossas investigações clínicas, e aquilo que sempre foi inconsciente - experiências que jamais tiveram representação no Sistema Préconsciente-Consciente.

 

Ferenczi e Reich eram a meu ver homens que  estavam para além de sua época, uma vez que suas teorias incluem, embora não de forma explícita, muitos dos postulados assumidos pelos novos paradigmas. Seguindo então seus passos, proponho  que a inclusão do trabalho corporal no processo psicanalítico pode ser uma das formas de lidar com a dimensão  clínica anteriormente apontada - da ordem do primitivo e do traumático e também do silencioso, sem representação - que demanda novas formas de manejo, pois, com muita evidência, as formas que utilizamos para lidar com o inconsciente recalcado não lhe são apropriadas. É fato sabido por quem já experimentou ou presenciou sessões de trabalho corporal, que o mesmo pode fazer emergir, através de imagens, conteúdos inconscientes traumáticos, que permaneciam inconscientes depois de anos de análise, sem nunca terem se manifestado. O trabalho corporal é portanto uma forma de fazer falar o silencioso impresso no corpomente, fazendo-o ascender à consciência e dando-lhe assim a possibilidade de acesso ao simbólico.

 

Convido  àqueles que se interessarem por estes temas a enviarem artigos sobre os mesmos para este Departamento, a discutirem os que já estão expostos e a entrarem em contato conosco via email, para debater idéias ou até para propor grupos de discussão sobre o tema.

 

O Departamento O Corpo e a Psicanálise funciona em parceria com a Sociedade de Psicanálise da Barra, onde em março de 2009 terá início o Curso O Corpo na Psicanálise, no qual os temas acima expostos serão estudados e debatidos.  Mais informações podem ser obtidas no site da Sociedade, que pode ser acessado através da gazeta virtual Sentire.

 

 

Maria Lucia Pilla

 

luciapilla@terra.com.br

Cons.: Av. das Américas, 3939, bl. 2, s. 302,

Barra da Tijuca, RJ, 22631-003,

Tel.: (021) 24311621

Tel.: (021) 24382361

 

 

 

Caixa de texto: Corpo e Psicanálise/RJ
Maria Lucia Pilla

 

 

 

Quem Somos

 

 

Gazeta Virtual

 

Núcleo de Concepções Filosóficas e Culturais

 

Núcleo de Ciências Acadêmicas e Para-Acadêmicas

 

Núcleo de Expressão Artística